domingo, 5 de abril de 2009

Revista Época insulta Porto Velho

A reportagem é absurda, tal como a forma como a qual foi elaborada (segundo rumores de que a própria filha da entrevistada disse): baseada em um telefonema realizado a uma única entrevistada, e com demasiado exagero em cima das declarações da dona-de-casa.
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Revista Época
30/03/2009 - 17:42

A cidade que não estava lá
Porto Velho, capital de Rondônia, recebe as famílias de trabalhadores das usinas do Rio Madeira com aluguéis exorbitantes, sistema de saúde precário e uma coleção de problemas de infra-estrutura
Por Eliane Brum, de Porto Velho



As famílias dos trabalhadores das polêmicas usinas do Rio Madeira começam a desembarcar em Porto Velho, capital de Rondônia. Encontram uma cidade com aluguéis mais elevados que São Paulo, sistema de saúde precário, rede escolar deficiente, calçadas esburacadas, saneamento básico quase inexistente e lixo para todo o lado. Com a perspectiva de anos de trabalho por lá, os maridos tem de se esforçar para que a mulher não faça as malas e pegue um avião de volta enquanto ele está no trabalho. São funcionários das empresas dos consórcios que constroem as usinas de Santo Antonio e Jirau e não têm escolha, é “vai ou vai”. “Meu marido não me contava a verdade quando falava comigo por telefone”, conta Andrea Rocha Izac, de 37 anos, três filhos. “O bicho é muito mais feio do que eu pensava. Acho que meu marido tinha medo que, se contasse como era, eu não viesse. E ainda nem sei se vou conseguir ficar!”

Nos primeiros anos, na fase de estudos de viabilidade, os homens vinham sozinhos. Desde o final do ano passado, começaram a chegar as famílias. Os problemas de Porto Velho, que sempre foram muitos, multiplicaram-se, acentuados por uma voracidade do setor imobiliário, especialmente, e do comércio em geral. O preço do aluguel de imóveis em Porto Velho triplicaram e hoje tornou-se um dos mais altos do Brasil. “Eles olham pra nós e não enxergam pessoas. Vêem uma notinha de dólar”, desabafa Andrea. “Como vou me sentir bem num lugar que me recebe assim?”

Andrea e o marido, o engenheiro agrônomo Marco Antonio Izac, 39 anos, que trabalha para uma das empresas do consórcio há 17, deixaram uma casa própria de 140 metros quadrados, com três quartos, dois deles suítes, num condomínio fechado de uma área nobre de Cuiabá, no Mato Grosso, a 500 metros de um parque. Conseguiram alugá-la por R$ 1500. Em Porto Velho, o melhor que encontraram foi uma casa menor, distante da área central e das partes mais nobres, também num condomínio fechado, mas cercado de água empoçada há semanas, por R$ 1800. Insatisfeitos, eles procuram outro imóvel, mas apartamentos bem localizados, cujo aluguel valia R$ 1 mil há um ano, hoje custam R$ 2.500. Negociação é uma palavra riscada na cartilha dos agentes imobiliários de Porto Velho. Não precisam dela. Toda semana tem alguém desesperado batendo na porta em busca de casa para morar.

O choque da família Izac aumentou ainda mais depois que o caçula dos três filhos adoeceu. Antonio Jorge, de seis anos, pegou dengue, provavelmente porque a água empoçada ao redor do condomínio é um criadouro de mosquitos. Mas só conseguiu atendimento no quarto hospital – e isso com plano de saúde. A filha mais velha, de 15 anos, está com problemas de adaptação à escola e à cidade. Procuraram uma psicóloga. Depois de esperarem horas pela consulta, foram embora sem que a profissional conveniada tivesse aparecido. Para quem só pode contar com o SUS, a situação já começa a virar caso de polícia. Na edição dominical do jornal O Estadão, de Porto Velho, a manchete era: “Médicos ameaçados de morte nos postos de saúde da capital”. A causa: demora no atendimento.

A educação, para quem pode pagar, é cara. Para quem não pode, há risco de ficar sem. Com três filhos na escola, a família Izac desembolsa, em Porto Velho, 40% a mais no valor das mensalidades em uma escola privada. “É tudo muito feio, muito sujo e muito caro. Eu preciso dizer aos meus filhos que vai dar tudo certo, mas minha vontade é só dormir”, diz Andrea. “Quando meu caçula adoeceu e foi aquele descaso, quase fiz as malas e fui embora.”

As mulheres recém-chegadas encontram-se na casa de Andrea para trocar informações e desencantos. “Conto os dias para ir embora”, diz a dona da casa. “Acho que quando cansar de contar, acostumo.” Ela tem pela frente uma perspectiva de pelo menos sete anos na capital de Rondônia. Animada mesmo, só Odila Pereira. Aos 55 anos, dois filhos adolescentes, Porto Velho é a sétima cidade em que ela desembarca com o marido. Já morou com bebê pequeno em hotel, já passou por todo tipo de perrengue. “A mulher é a pessoa principal nessas mudanças, nós temos de ser o esteio psicológico para o marido, que tem um desafio novo no trabalho, e para os filhos, que estão deixando cidade e amigos”, ensina Odila às mais jovens. “Não é fácil, mas a gente tem de ser forte. Pra mim o que importa é estar com a minha família, mesmo que seja difícil. E é.”

Porto Velho é uma cidade que tem a história tatuada na geografia urbana. Quase não há árvores nas ruas esburacadas, mesmo no centro, o que torna o calor ainda mais opressor. A floresta desmatada é um eco também ali. Diferente de outras capitais amazônicas, quase não se veem índios. Praças e espaços públicos são escassos, as calçadas são desiguais e pontuadas por lixo. A atmosfera é pesada e triste. Não parece um lugar para pessoas. Ou pelo menos para exercer a cidadania. Assemelha-se a uma cidade de passagem. Como definiu um companheiro de viagem, Claudiney Ferreira, “Porto Velho é uma cidade que não é daqui”.

Políticos, empresários e até jornalistas festejam o que está sendo chamado de “crescimento chinês em Rondônia”, que estaria assim imune à crise econômica mundial. Caras e controversas, as usinas hidrelétricas do rio Madeira, vitrines do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), custarão cerca de R$ 20 bilhões, com a previsão de injeções polpudas na economia de Rondônia pelo menos até 2013. Mas se a elite empresarial e política de Rondônia aprecia comparar o crescimento com os melhores índices da China, é bom também que perceba as semelhanças com as piores mazelas.

Acostumados a seguir as grandes obras de suas empresas, os trabalhadores mais especializados, que não são substituíveis por mão de obra local, estão assustados com Porto Velho. “Já fiz todos os cálculos”, diz o engenheiro civil Ângelo Leal, 41 anos, coordenador de equipe, em Furnas, uma das empresas que constrói a usina de Santo Antonio. “Se tiver de me mudar para cá com a minha esposa, o custo de vida vai aumentar 40% e a qualidade vai diminuir muito.” Uma casa equivalente ao sobrado que vive em Goiânia e cujo aluguel custa R$ 550, em Porto Velho ele só encontra por R$ 1300. O casal gasta, na capital goiana, R$ 500 mensais em gêneros de primeira necessidade. Segundo a pesquisa de Ângelo, em Porto Velho serão R$ 150 a mais, com qualidade pior. “Sem contar que apenas 20% da água de Porto Velho é tratada e há apenas 3% de esgoto sanitário”, afirma. “Estou aqui há quatro anos, indo e vindo, e me sinto trabalhando em outro país.”

A vida piorou também para quem já vivia em Porto Velho. A estimativa é de que hoje exista um déficit de 2 mil vagas escolares na rede pública. O atendimento nos hospitais chega a dois dias de espera, cirurgias estão sendo adiadas por meses. Na hora de renovar os aluguéis, moradores descobrem que o proprietário quer três vezes mais, apostando nos recém-chegados. O jeito é pagar o mesmo por um lugar três vezes pior e ainda mais periférico. Outra leva de gente vai chegando dos cantos empobrecidos em busca de um cantinho na mais recente das grandes obras amazônicas. O desfecho dessa migração a história já mostrou. Mas com alma de migrantes, que já andaram um bom trecho do país, os que chegaram há anos e os que alcançam hoje a borda de Rondônia, comungam de uma esperança que já virou ilusão em empreendimentos anteriores: a de que a vida vá melhorar com um posto de serviço nas obras de Santo Antonio e Jirau. Ou em algum dos milhares de empregos indiretos prometidos. Sem outra alternativa a não ser buscar, nessa migração eles vão carregando o Brasil nos pés.

Resposta:

Nunca senti tanto nojo ao ler uma reportagem quando li esta: A cidade que não estava lá, de Eliane Brum. O material jornalístico não é imparcial e é tendencioso do começo ao fim.

Porto Velho, terceira capital do Norte do Brasil, lamentavelmente tem sim os problemas citados, entretanto a Sr.ª Eliane os expôs de forma exagerada, e se quer mencionou as razões de estarmos nestas condições, razões estas que envolvem todo um contexto histórico e político. E a julgar pela forma que foi abordada a reportagem essa infeliz profissional não se deu o trabalho de fazer um breve estudo sobre o passado da cidade, talvez se assim tivesse feito saberia escrever algo melhor e mais bem feito. E a julgar pelas fotos que ilustram a reportagem (fotos antigas espalhadas há tempos na Internet, sendo facilmente encontradas em uma pesquisa Google) ela provavelmente nem se quer colocou os pés por aqui.

Os problemas de fato existem, mas Porto Velho, assim como toda a Amazônia não têm apenas isso para mostrar, por aqui temos muita gente boa e ruim, lugares feios e outros que valem apena serem conhecidos; são situações presentes em todo e qualquer lugar. Exceto, claro, na bolha de fantasias de onde devem ter vindo a repórter e a entrevistada fútil e tapada.

Se a Sr.ª Eliane Brum conhecesse tão bem a história do Brasil saberia que os problemas que assolam Porto Velho, assim como em todo o Estado, é decorrente dos vários ciclos de exploração descontrolados na região (ciclos da borracha, cassiterita, diamante, ouro), ocasiões que proporcionaram crescimento populacional, e desenvolvimento desorganizado. Muitos ganhavam dinheiro e iam embora, e Porto Velho ficava com os danos ocasionados por tais ciclos econômicos; sem ter qualquer compensação relevante. E com as obras das hidrelétricas do Madeira, a cidade de Porto Velho volta a ser assombrada por essas consequências.

A repórter, também devia ter levado em consideração que a região Norte do Brasil é a mais esquecida e marginalizada pelos Governos que estiveram à frente país, sendo raros os investimentos feitos em prol da dignidade do pessoa amazônida.

O resto do Brasil vê a Amazônia com os mesmos olhos que (segundo alguns) os outros países a vêem: com interesse nos recursos naturais da região, apenas isso. A construção das hidrelétricas do Madeira é um grande exemplo, tanto que a necessidade de sua existência é a garantia de energia para o Sul do Brasil, uma vez que a energia gerada pelas hidrelétricas irão em rede contínua direto para aquela região. São raras as obras que investem no povo local, ou que garantam melhores condições de vida para os mesmos. A sensação de esquecimento e isolamento é grande.

Outra coisa que devia ter sido esclarecido naquela reportagem é a falta de planejamento que houve com a vinda das hidrelétricas do Madeira, isto é, as obras das hidrelétricas estão a todo vapor, entretanto as obras de infra-estrutura, que deveriam ter ficado prontas primeiro, estão na prática a passos lentos. E a desestruturação da cidade é fruto de anos e anos de abandono e descaso, por parte das autoridades políticas de âmbito Federal e locais. 

Irracional também foi o intento da jornalista em querer de fazer de Porto Velho o pior lugar do mundo. São Paulo por exemplo, é uma megalópole internacional, tida como a maior cidade da América Latina com mais de 450 anos; entretanto, mesmo assim também tem seus defeitos de infra-estrutura, como as enchentes causadas pelo lixo jogado nas ruas, sem falar que São Paulo, tal como outras grandes capitais, também não estão imunes à buracos nas vias, lixo, pessoas mal educadas (parte dos mesmos são preconceituosos e intolerantes com nordestinos e nortistas), dengue, pra resumir, todo dia a imprensa nacional mostra vários problemas que assolam também os grandes centros do país.

A construção das hidrelétricas gerando energia exclusivamente para o cone-sul, só vai fazer que São Paulo, possuidor do maior PIB do Brasil, fique mais forte e poderoso, e Porto Velho fique com os vícios de um crescimento muito rápido e desorganizado, decorrente de uma grande obra mal planejada.

Quanto à entrevistada, sugeriria que procurasse algo melhor pra fazer da vida, em vez de atender certas repórteres para conspirarem contra a cidade que a recebeu. Pelo menos estão sentindo na pele o drama que nós nortistas passamos há anos por estarmos distantes dos grandes centros, e por Porto Velho ter sido uma cidade muito hospitaleira em outras épocas, afinal, é sempre isso o que ganhamos a cada ciclo econômico instigado pelo Governo Federal: salto populacional e nenhuma compensação relevante no tocante a infra-estrutura no local.

Eliane em sua reportagem disse que não viu índio por aqui, mas é claro que os poucos índios civilizados que vivem na cidade não andam com um crachá dizendo o que são, e se ela quisesse mesmo ver índios ela deveria ter visitado nossas florestas. Entretanto é bem provável que a mesma tivesse o pensamento besta de que índios andam nus no meio urbano.

Costuma-se dizer que quem financia a violência são os que compram drogas, quanto ao desmatamento não é diferente: quem financia a destruição da floresta e quem compra madeira irregular. São várias as reportagens-denúncias que mostram caminhões carregados de troncos de árvores, ou madeira beneficiada, irregulares, rumo ao sul do Brasil, que são os principais compradores.

E não se sabe de onde a Sr.ª Brum tirou que a atmosfera em Porto Velho é triste, pois a verdade é extremamente o contrário, pois apesar de todo e qualquer problema o povo portovelhense é alegre e não perde a esperança. E ao dizer que a cidade não parece um lugar para pessoas a jornalista ofende os portovelhenses com tamanha brutalidade. Mas por outro lado talvez a cidade de Porto Velho não seja mesmo um lugar para pessoas... Sim, não é uma cidade para pessoas como ela e a dona-de-casa desocupada, e para tanto a entrada da cidade esta sempre aberta para gente vazia como as duas irem embora. Aliás, por que a dona-de-casa veio? E já que viver em Porto Velho é tão ruim por que permanecem aqui? Vão embora e levem todo de ruim que vocês trouxeram, pois Porto Velho não precisa de gente como elas, garanto que não farão falta, e se for por falta de adeus: Tchau! Vão pela sombra!

Importante esclarecer que as portas da cidade estarão sempre abertas para receber pessoas respeitosas que queiram crescer, trabalhar e contribuir para o progresso de Porto Velho. E tão importante quanto dizer isso, é lembrar que cidade agradece aos muitos imigrantes de bom senso; pessoas de fora que cresceram, progrediram e estão sabendo retribuir, mesmo que defendendo Porto Velho de pessoas pequenas que o máximo que sabem fazer é criticar e insultar a cidade que as recebeu, recebe, e certamente continuará recebendo.

A reportagem da Sr.ª Eliane foi feita com a única intenção de denegrir a imagem de Porto Velho em cenário nacional, tanto que se a mesma quisesse demonstrar profissionalismo, procuraria as famílias de operários da mesma construção, e não exclusivamente famílias de ocupantes de cargos elevados. Também deveria  ter entrevistado portovelhenses de sangue ou de coração para mostrar também o ponto de vista deles, além de entrevistar representantes da Administração da cidade e, ainda, ter procurado saber sobre a origem de tais problemas. Porém o que há são rumores de que a referida jornalista escreveu tal matéria baseada somente num telefonema a uma única entrevistada. E se de fato foi assim que surgiu tal trabalho jornalístico, que crédito essa profissional deve ter? Se é que uma jornalista assim poderá ser chamada de profissional.

A respeito da revista Época, que já não era tão importante, perde ainda mais a credibilidade, pois está demasiado claro que o nível da revista está muito baixo... E com essa reportagem medíocre despenca ainda mais. Como um editor permite que uma reportagem insulte tão gravemente uma cidade inteira? Que uma reportagem tão tendenciosa seja publicada? E você, caro leitor, se realmente costuma dar valor a reportagens feitas com responsabilidade e profissionalismo, sugiro que não assine a Revista Época.
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